sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Escolha de um Amigo

Meus amigos?
Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero o meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, SÓ SENDO LOUCO.
Quero-os santos, para que NÃO DUVIDEM DAS DIFERENÇAS e peçam perdão pelas injustiças. Escolho os meus amigos pela CARA LAVADA e pela ALMA EXPOSTA. Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria. Amigo que não ri conosco não sabe sofrer conosco. Os meus amigos são todos assim: metade DISPARATE, metade SERIEDADE. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os METADE infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a NORMALIDADE É UMA ILUSÃO IMBECIL E ESTÉRIL.


Oscar Wilde.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um telefone toca num fim de tarde, começo de noite . . .

* Alô?
* Pronto.
Ele: - Voz estranha... Gripada?
Ela: - Faringite.
Ele: - Deve ser o sereno. No mínimo tá saindo todas as noites pra badalar.
Ela: - E se estivesse? Algum problema?
Ele: - Não, imagina! Agora, você é uma mulher livre.
Ela: - E você? Sua voz também está diferente. Faringite?
Ele: - Constipado.
Ela: - Constipado? Você nunca usou esta palavra na vida.
Ele: - A gente aprende.
Ela: - Tá vendo? A separação serviu para alguma coisa.
Ele: - Viver sozinho é bom. A gente cresce.
Ela: - Você sempre viveu sozinho. Até quando casado só fez o que quis.
Ele: - Maldade sua, pois deixei de lado várias coisas quando a gente se casou.
Ela: - Evidente! Só faltava você continuar rebolando nas discotecas com as amigas.
Ele: - Já você não abriu mão de nada. Não deixou de ver novela, passear no shopping,
comprar jóias, conversar ao telefone com as amigas durante horas.

. . . Silêncio . . .

Ela: - Comprar jóias? De onde você tirou essa idéia? A única coisa que comprei
em quinze anos de casamento foi um par de brincos.
Ele: - Quinze anos? Pensei que fosse bem menos.
Ela: - A memória dos homens é um caso de polícia!
Ele: - Mas conversar com as amigas no telefone ...
Ela: - Solidão, meu caro, cansaço ... Trabalhar fora, cuidar das crianças e ainda
preparar o jantar para o HERÓI que chega à noite... Convenhamos, não chega a
ser uma roda-gigante de emoções ...
Ele: - Você nunca reclamou disso.
Ela: - E você me perguntou alguma vez?
Ele: - Lá vem você de novo... As poucas coisas que eu achava que estavam certas...
Isso também era errado!?
Ela: - Evidente, a gente não conversava nunca ...
Ele: - Faltou diálogo, é isso? Na hora, ninguém fala nada. Aparece um impasse e
as mulheres não reclamam. Depois, dizem que Faltou diálogo.
As mulheres são de Marte !
Ela: - E vocês são de Saturno!

. . . Silêncio . . .

Ele: - E aí, como vai a vida?
Ela: - Nunca estive tão bem. Livre para pensar, ninguém pra Me dizer o que devo fazer ...
Ele: - E isso é bom?
Ela: - Pense o que quiser, mas quinze anos de jornada são de enlouquecer qualquer uma.
Ele: - Eu nunca fui autoritário!
Ela: - Também nunca foi compreensivo!
Ele: - Jamais dei a entender que era perfeito. Tenho minhas limitações como qualquer
mortal ...
Ela: - Limitado e omisso como qualquer mortal.
Ele: - Você nunca foi irônica.
Ela: - Isso a gente aprende também.
Ele: - Eu sempre te apoiei.
Ela: - Lógico. Se não me engano foi no segundo mês de casamento que você lavou a
única louça da tua vida. Um apoio inestimável ... Sinceramente, eu não sei o
que faria sem você? Ou você acha que fazer vinte caipirinhas numa tarde para um
bando de marmanjos que assistem ao jogo da Copa do Mundo era realmente
o meu grande objetivo na vida ?
Ele: - Do que você está falando?
Ela: - Ah, não lembra?
Ele: - Ana, eu detesto futebol.
Ela: - Ana!? Esqueceu meu nome também? Alexandre, você ficou louco?
Ele: - Alexandre? Meu nome é Ronaldo!

. . . Silêncio . . .

Ele: - De onde está falando?
Ela: - 2578 9922
Ele: - Não é o 2578 9222?
Ela: - Não.
Ele: - Ah, desculpe, foi engano.

Depois de um tempo ambos caem na gargalhada.

Ele: Quer dizer que você faz uma ótima caipirinha, hein?
Ela: - Modéstia à parte... Mas não gosto, prefiro vinho tinto.
Ele: - Mesmo? Vinho é a minha bebida preferida!
Ela: - E detesta futebol?
Ele: - Deus me livre... 22 caras correndo atrás de uma bola... Acho ridículo!
Ela: - Bem, você me dá licença, mas eu vou preparar o jantar.
Ele: - Que pena... O meu já está pronto. Risoto, minha especialidade!
Ela: - Mentira! É o meu prato predileto...
Ele: - Mesmo! Bem, a porção dá pra dois, e estou abrindo um Chianti também.
Você não gostaria de...
Ela: - Adoraria!

Ele dá o endereço.

... CUIDADO COM AS LINHAS CRUZADAS ...

Luís Fernando Veríssimo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sociedade Capital

A cada passo que corre
Assim que a noite se acaba,
Quando o frio chega me encolhe.
Descarto a puta na estrada.

Cansei do esforço de outrora,
O meu relógio não dorme.
A vida cobra futuro!
Falta-me um pouco de sorte.

Procuro o sol, quesível
Deito meus pés na calçada.
Que pena, sou invisível?
Mas são questões formuladas!

Agora poucas respostas
Pra moça que vi no chão
Traz uma filha, tão porca
“Quer cheirar tiú? Só vintão!”

De longe enxergo, mal visto
Um andarilho, eu fui.
Acho comida no lixo
A sociedade me exclui.

Leonardo Santana.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Parto



Deito ao som de tua voz
Na noite mais fria e escura.
Pesadelos devassos rondam minha mente
Mas o converteu com tua canção.

Do mundo não o muda,
Da muda não a toca,
Do toque no meu coração,
Criou nossa particular oração.

Claro e escuro,
Frio e quente,
Dia e noite,
Eu e o lírico.

Um verão, uma casa.
Uma moça que é ladra.
Roubou meu ar, meu chão, meu traço,
E meu amor um pouco abstrato.

Leonardo Santana.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Das margens do Sol

Recordo-me que há alguns anos conheci um menino, um menino que gostava da manhã.
A cada canto do galo ele corria em volta da chuva esverdeada que rodava seu joelho o beliscando como velhas cansadas. Dizia, gritava, chorava aclamando que iria roubar o sol.
A cada partida da madrugada ele marchava na rua dizendo que o sol era seu refém. Dizia para quem quisesse ouvir. Os vizinhos debochavam como quem celebrava o primeiro feriado. E ele enfurecia-se com gargalhadas alheias ofendendo sua luxuria. Certa manhã, os vizinhos correram até a rua e não avistaram o grande astro. Esperneavam perguntando – “Onde estará, onde estará?”. E o menino vinha com um sorriso radiante com o sol pregado em teu peito aclamando aplausos. Mas ninguém o aplaudiu, sorrisos virados de ponta cabeça cercaram o menino. O silencio tomou conta do instante. Até que estrondos são ouvidos. Como uma flecha em regressão o sol sai do peito do garoto e desfila lentamente até o meio da rua. O menino, encabulado... Diria que até ludibriado aponta seu dedo para o sol e ordena que ele volte. O sol continuou a seguir seu caminho. O menino com um toque de raiva corre em sua direção e o agarra, o sol continuou a subir, e o menino com uma face raivosa agarrado nele sobe até o infinito. O sol continua em teu posto até hoje. E o menino, nunca mais foi visto, só são circulados boatos alheios contados em cochicho.
Leonardo Santana.

Uma Breve introdução.

 Minha intenção é atingir todos os pontos dos sentimentos. Remover as definições e espremer todos os gostos que cada palavra possui. Com isso criar uma nova idéia sobre a realidade, enxergando cada face vista de passagem  e dar novos valores a ela.